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Revisitar o Sonho Perdido

Era jovem, entre a infância e a adolescência, o tempo em que sonhar e viver se confunde. Levaram-me à “quinta”, foi assim com esta denominação que ficou impressa na minha memória, sem outro nome que a distinguisse. Não queria acreditar no que os meus olhos viam… foi como sonâmbula que me movi por entre as árvores gigantescas que coavam o sol através das folhas iluminadas de múltiplos contrastes. Cada movimento das minhas pernas levava-me a percorrer caminhos de pedras bordadas por ervas e flores minúsculas. As pernas flectiam-se e os olhos perdiam-se à procura de mais uma flor desconhecida. Quando conseguia desprender-me daquele fascínio e retomava a viagem, tal como nos sonhos, saltava-me ao caminho uma casa da “Gretel e do Hansel”, de chocolate e tudo, hei-de jurar. Ou surgia um inesperado pórtico, uma fonte, um lago de águas mansas com cisnes e patos deslizando e que não pertenciam ao mesmo sonho, mas que certamente os tinha “visto” nos meus devaneios pelas gravuras e textos românticos, encontrados nos livros da biblioteca de meu avô, de que tanto gostava… a minha cabeça voltada para a copa das árvores, rodava numa vertigem de imagens desfocadas e, de repente, saltava para outra dimensão, outro lugar familiar aos meus odores e afectos. A minha aldeia das ovelhas e cabras de todas as férias. A ”casa das cabras” granítica como um castelo, com uma rampa pela qual o velho bode de longa barbicha, subia até aos seus domínios no céu. As escalas confundiam-se e confundiam-me, passava da minúscula escala dos livros de infância para a grandeza majestática de catedrais vegetais e eu, ali perdida e achada, ora grande ou pequena conforme a minha imaginação seguia o devaneio do sonho. Ao longo dos anos sempre que esse “sonho” era de novo sonhado, procurava no fundo mais fundo da minha memória localizar a “quinta”. Mas desta apenas tinha retido o meu encanto e não a realidade que o sustentou. Um dia a Marta mostra-me as suas fotografias belíssimas, diria de “sonho”, da Quinta da Aveleda e, de repente, por entre as brumas da memória, surge a “quinta”… finalmente encontrada. Depois surge outro dilema, devo ir ao encontro do sonho outrora sonhado e correr o risco de o ver perdido nos meus devaneios de infância ou acreditar que o posso sonhar de novo, é certo com outra idade, referências culturais e conhecimentos, mas apesar de tudo com um corpo e espírito abertos, às sensações e emoções que haja a viver. Fui, e tal como nos sonhos da noite, vivi a estranheza de deambular por entre dimensões irreais, de tempo e espaço fragmentado, por entre desígnios, afectos e sensações revisitadas e que, jamais esquecerei…

Texto por Luísa Gonçalves

22 de Junho de 2009

Revisit the Lost Dream

I was young, between childhood and adolescence, the time in which dreaming and living could not be told apart. they took me to the “quinta””, it was this name that remained in my memory, without other name to identify it. I couldn’t believe my eyes… it was like a sleepwalking, where I moved among the huge trees that filtered the light of the bright sun through the illuminated leaves of multiple contrasts. Each movement of my legs took me trough paths of stones embroidered with weeds and flowers. The legs bent down and the eyes lost themselves searching for another unknown flower. Each time I could release myself from that fascination and continued walking, as in my dreams, a house appeared in my way, the “Hansel and Gretel” chocolat house, I will swear. Or an unexpected porch would emerged, a fountain, a lake of calm water with swans and ducks moving smoothly, that did not belong to the same dream, but that I certainly had “seen” in my reveries through illustrations and romantic texts, found in books of my grandfather’s library, that I loved so much… my head was turned to the top of the trees, turned round in a vertigo of blurred pictures and suddenly, I jumped to another dimension, to another place, familiar to my odours and affections. My village, of sheep and goats, where I used to spend my holidays. the “house of the goat”, of hard stone as a castle, with a ramp by which the old goat with a long goatee, climbed till his domains in the sky. The scales got confused and mistook me, I switched from a tiny scale of the childhood books to the majestic greatness of cathedrals plants, and I was lost and found, either big or small, according to my imagination following the reverie of the dream. Over the years, whenever this “dream” was dreamt again, I looked deeper at the bottom of my memory to find the “quinta”. But I had only withheld my charm and not the reality that claimed it. One day Marta showed me her beautiful photos, “dream” photos, I would say, of “Quinta da Aveleda” and suddenly, through the mists of my memory, the “quinta” appears…finally found. But with it comes another dilemma, shall I go and meet the dream taking the risk of seeing him lost in my childhood reveries, or shall I believe that I can dream it again, in fact with other age, other cultural references and knowledges, but despite of everything with a body and mind opened to the sensations and emotions that are there to be lived. So I went, and as in my night dreams, I experienced the strangeness of walking through unreal dimensions, of fragmented space and time, through within designs, engaged and feelings revisited that I will never forget…

Text by Luísa Gonçalves

June 22nd of 2009

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