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“Gostaria que o meu trabalho englobasse tudo o que sou, tudo o que vi, tudo o que desejo, tudo o que recordo, tudo o que sei, tudo o que me interessa, tudo o que fiz, tudo o que não fiz, tudo o que desejei ser.”

(Daniel Blaufuks “O Arquivo: Um Álbum de Textos” [2008: 23])

Há acontecimentos que se dão num ponto de tempo e em nenhum outro. Desse instante sem nome, onde se forma a história e de onde o tempo surge, irrompe-se o gesto que desenha a cartografia de um lugar a que chamamos de “recordações”, revelando a experiência de um encontro com o corpo do mundo. Num instante apenas imprimem-se, nas dobras do corpo de um mundo, os traços que se irão enraizar na memória da duração.

A fotografia, nascida de uma experiência do olhar impressivo do fotógrafo – enquanto operação de um desejo e como resultado de um processo de escolhas – é um “espelho com memória” (Blaufuks 2008: 45). A fotografia é, neste sentido, o corpo de uma experiência vivida e, simultaneamente, o lugar de recriação das recordações. Na sua qualidade de ser espelhado, reflecte o universo labiríntico das ligações tecidas entre uma memória pessoal e uma memória colectiva. Entre a memória da viagem e a viagem pela memória. Percorrer este labirinto é percorrer uma história, tactear os limites do relevo de um corpo que, em si mesmo, é um fim e um início. Mas é, também, percorrer um mundo-outro: o mundo-imagem pensado, imaginado e criado pelo fotógrafo, que mediado pela mecânica de uma objectiva, assegura-nos a promessa da sobrevivência, concedendo-nos, assim, a sensação, e o fascínio, de uma certa continuidade.

A fotografia não é, deste modo, uma simples cópia mecânica da realidade. Ela é um rastro. Um vestígio. Uma reminiscência. Não uma mera transparência de um acontecimento mas, antes, a sua memória perspectivada e continuamente recriada. Entender isto é, como afirma Daniel Blaufuks, “percorrer este labirinto e, eventualmente, sair dele” (2008:21). Compreender a fotografia como registo e interpretação da realidade, é compreendê-la enquanto corpo-lugar que nos olha, nos toca e nos fala. No limite, é compreendê-la como a gramática que permite a narração de experiências singulares. Não apenas como um objecto que condensa e armazena mecanicamente significados, mas como um tipo de texto que, pela sua força documental, é capaz de recriar, transformar e gerar novos sentidos e novas mensagens e de, assim, adquirir memória. Neste jogo, entre realidade e ficção, a fotografia distancia-se da simples reprodução do mundo, pousando palavras em cima das coisas. É, enquanto escrita de luz, a tradução de uma outra forma de visitar, de pensar e de imaginar o mundo, não para produzir um sentido definitivo, mas, fendendo o mundo visível, restitui-lo à sua condição de possibilidade, restaurando a recordação.

A fotografia é, de facto, um espelho com memória. E a memória é, ela mesma, uma criação activa tecida nas malhas do jogo constante entre o pensado, o vivido, o existido, o imaginado, mas também, o silenciado. A memória, não sendo uma mera repetição compulsiva da recordação, é movimento que se abre ao que ainda não aconteceu, ou seja, ao que ainda não teve direito à lembrança. Ou à palavra. Entre as palavras e as coisas, é o movimento que abre o olhar ao que ainda não se vê, mas imagina.

Entre a finitude do vivido e a infinitude do lembrado, rememorar é o gesto de, no presente, ouvir a fotografia. Num ponto de tempo e em nenhum outro, é o gesto que, nas palavras de Herberto Helder, faz a memória entrar pelos olhos.

Texto por Joana Alves-Ferreira (FLUP; CEAUCP-CAM; FCT). Fotografia por Marta Guimarães. Design por Daniel Oliveira.

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